Toda palestra boa termina com a mesma coisa acontecendo na plateia, e ela não está em slide nenhum: alguém pensando “como que eu aplico isso pro meu caso”.
Isso é o que eu sempre procuro que aconteça depois das minhas palestras. E no RogaDX aconteceu: a palestra logo após a minha parecia uma continuação e depois surgiram muitas conversas com a plateia em torno do assunto.
Eu passei dois dias no evento. Subi no palco da Arena Builder para falar do ciclo de desenvolvimento com IA, e quando não estava lá, percebi que muitas das outras palestras eram baseadas em ideias semelhantes e resolviam problemas parecidos com os meus.
A escolha das palestras foi muito bem feita pela organização e ela faz três coisas difíceis:
Escolhe os assuntos que valem a pena;
Reúne num mesmo lugar quem se importa com eles;
Entrega conteúdo que alguém validou e testou antes de subir no palco.
Por que eu estava lá
O RogaDX é o maior evento de tecnologia de Alagoas e chegou em 2026 à quinta edição, nos dias 14 e 15 de agosto, no Centro de Convenções de Maceió. A organização espalhou a programação por quatro arenas simultâneas: Roga DX, Tech, Builder e a de Negócios, que estreou nesta edição. Os números que o site do evento publica dão a escala: mais de 2 mil participantes, mais de 55 palestrantes, mais de 15 empresas de tecnologia e mais de 20 mentorias.
Eu palestrei na Arena Builder, sobre o ciclo de desenvolvimento com IA e o impacto dela nas carreiras das pessoas.
O argumento que eu levei veio do livro Vibe Coding: Building Production-Grade Software with Genai, Chat, Agents, and Beyond, de Gene Kim e Steve Yegge, e vem do acrônimo FAAFO (Fun, Autonomous, Ambitious, Fast, and Optionality) que eu traduzi para ADORA: Autonomia, Diversão, Opcionalidade, Rapidez e Ambição. São os cinco superpoderes que o desenvolvimento assistido por IA destrava, e a tese que amarra os cinco é que o gargalo do trabalho saiu de lugar. Não está mais em escrever o código. Está em decidir o que construir, revisar o que voltou e responder pelo resultado. Esse é o ciclo.
Tem post aqui no blog sobre isso: ADORA, os 5 superpoderes do Vibe Coding.
Também falei de como podemos instanciar o Paradoxo de Jevons ao impacto que a IA está causando na carreira de desenvolvimento de software. Também tem post sobre isso aqui: O caixa eletrônico não acabou com o caixa. E a IA não vai acabar com o desenvolvedor.
A sala encheu, e esse é um dos melhores dados pra mim. Não pela contagem em si. Sala cheia significa que, quando eu descer do palco, vai existir gente com o mesmo assunto fresco na cabeça, e é isso que faz a conversa depois começar no meio em vez de começar do zero.
E é dessa conversa que sai o que eu mais gosto nos eventos: a experiência de quem já tentou aquilo em outro contexto, a pergunta que eu não tinha previsto, o furo no argumento que só aparece quando alguém que vive o problema discorda na sua frente. Isso refina o que eu entendo, melhora a versão seguinte da palestra e é como eu tenho conhecido mais pessoas e feito amigos em eventos.
Quatro palestras, um assunto só
Quatro palestras me marcaram pela forma como elas se conectaram sem que os palestrantes tivessem planejado isso antes.
A Giovana Armani abriu no primeiro dia separando duas coisas que quase todo mundo trata como sinônimo. Código não é a mesma coisa que software. Código é transformar instruções em implementação. Software é transformar ideias abstratas em um sistema confiável. E ela subiu na tela uma citação do Boris Cherny, criador do Claude Code, que resume o incômodo de 2026 inteiro:
“Podemos dizer que código está, em grande parte, resolvido.”
Se código está resolvido e software continua difícil, a pergunta que sobra é o que exatamente ficou difícil. A resposta dela foi prática: a IA erra por falta de contexto, não por falta de inteligência. Modelos presos no tempo, respostas genéricas, confiança cega. E o fechamento dela foi uma lista de combate a cada um desses problemas, com MCP para dado em tempo real, steering para foco no contexto certo, skills para conhecimento especializado e specs para requisitos e padrões corretos, tudo isso mais revisão humana.
O Marcell’s Substack partiu daí e mostrou como que ele transforma todo o conhecimento de desenvolvimento de produtos em softwares que a IA consegue executar:
“Empresas AI Native não escalam porque possuem melhores modelos. Elas escalam porque transformam conhecimento em sistemas executáveis por IA.”
Ele mostrou os loops de desenvolvimento, a diferença entre um loop aberto e um loop fechado, e onde mora o conhecimento de uma operação quando você resolve versionar esse conhecimento em vez de deixá-lo na cabeça das pessoas. E fechou com três lembretes que valem impressos:
1. Decidir o que não construir é o novo trabalho difícil.
2. Feche o loop: meta, execução, verificação, iteração.
3. Cada erro vira regra escrita, pois o sistema aprende, não só a pessoa.
Repare no terceiro. Ele é a versão operacional do que a Giovana tinha dito de manhã, no mesmo dia: o problema é contexto, e contexto que não vira arquivo não vira contexto de ninguém.
Logo depois, o Rodrigo Terron deu um zoom out e saiu do software.
“A IA deixou de ser produto. Virou poder.”
A palestra dele falava sobre geopolítica, sobre o dia em que o mercado reprecificou software e sobre modelos de fronteira sendo tratados como material estratégico. Mas teve uma frase dele que tocou exatamente no assunto da minha palestra: digitar código deixou de ser o gargalo, e o diferencial de quem desenvolve subiu uma camada de abstração.
Essa é a terceira pessoa dizendo coisas relacionadas por enquadramentos diferentes, e nenhuma das três tinha combinado nada. A Giovana olhou de perto e separou dois conceitos que a gente trata como um. O Marcell enquadrou com o ângulo da empresa, onde o conhecimento precisa virar sistema. O Terron foi para longe, onde o assunto é geopolítica e energia. Cada foto conta uma história diferente da mesma cena: de perto você enxerga o detalhe, de longe você enxerga o todo, e é a soma dos enquadramentos que dá a visão inteira.
Na Arena Builder, no primeiro dia, aconteceu um painel chamado “Design e produto na era da IA: o que o mercado espera de você em 2026”, com Kacio Filipe, Marcell’s Substack e Carlyson. Ele é o contraponto interno desta seção: enquanto quatro palestras discutiam o que a IA faz com o código, o painel perguntava o que o mercado vai esperar da pessoa.
Faltava uma perspectiva, e ela veio logo depois da minha palestra.
A grata surpresa que veio depois da minha palestra
O Daniel Fireman palestrou na Arena Builder logo depois de mim, sobre como a Unico adotou desenvolvimento assistido por IA. Eu tinha acabado de descer do palco dizendo que o gargalo saiu de lugar. Ele subiu e mostrou um slide chamado The Bottleneck Moved.
Os números comparam o começo de 2025 com abril de 2026 e são dados internos da Unico:
Tempo de desenvolvimento ativo caiu 79,4%, de 307,8 horas para 63,3 horas.
Tempo de revisão caiu 58,7%, de 37,5 horas para 15,5 horas.
No mesmo período: volume mensal de mudanças de código cresceu 144,9%, de 465 para 1.139 mudanças por mês, e a entrega de novas funcionalidades cresceu 129,2%, que foi para onde a capacidade liberada foi parar. E o achado que ele chamou de crítico: a Unico manteve uma release a cada 2,5 dias enquanto o volume mais que dobrava.
A Unico foi na contramão do que a indústria vinha reportando, e é por isso que aquele slide me pegou. Os dados que eu tinha levado ao palco poucas horas antes diziam o contrário. O DORA report 2025 mostra 90% de adoção de IA entre desenvolvedores e 80% relatando ganho de produtividade. E a FAROS mediu para onde a fila andou: o tempo de revisão de PRs subiu 91% em 2025 e 441% em 2026, com 31% dos PRs sendo mesclados sem revisão nenhuma.
É a teoria das restrições cobrando o preço dela, e é o slide mais importante da minha palestra: geramos código mais rápido e empurramos a fila inteira para a revisão. Na Unico o tempo de revisão caiu 58,7%. Ele explicou por quê.
O relatório de ROI que o DORA publicou depois descreve o mecanismo disso. Existe uma queda temporária de produtividade que a maioria dos times paga antes do ganho chegar, e ela vem de três lugares: a curva de aprendizado, o custo de revisar código gerado por IA antes que isso se pague, e os limites de tudo o que vem depois, teste, aprovação e deploy, que não foram construídos para aquele volume.
A Unico não pagou essa conta. As sete capacidades do DORA já estavam no lugar antes da IA chegar. Havia mais de 200 SLIs pegando problema na hora. A revisão de arquitetura somada à IA virava quality gate automático. E o que se media era valor de negócio, não métrica de vaidade. Embaixo dos quatro itens uma lição:
“Nenhum desses quatro itens é sobre inteligência artificial.”
É o mesmo argumento que falo sobre as práticas que tornam a IA mais eficiente e previsível. Essas práticas também se aplicam aos nossos colegas: transparência, direcionamento claro, definição de boas práticas, verificação, observabilidade, etc. O ganho não veio da IA. Veio de padronizar a stack e documentar os padrões e as práticas de engenharia antes de ligar a IA em cima disso.
Com isso, a IA se torna uma aliada e reproduz as boas práticas. Sem isso, ela só aumenta o caos e a desorganização que já existe.
O fechamento dele é uma frase que serve para qualquer empresa que esteja pensando em adotar IA agora: a ordem da maturidade importa mais que a velocidade da adoção.
O preço de quatro palcos
Aqui vem a parte que os posts de evento costumam pular.
Quatro arenas simultâneas são vendidas como abundância, e quem vai sabe que são escolha forçada. Cada bloco de horário que você escolhe custa três blocos que você não vai ver. Ao longo de dois dias, isso significa que você não viu a maior parte do evento e você nunca vai saber o que perdeu.
Eu conheci o Kacio Filipe lá. Ele foi ótima companhia o evento inteiro, dessas pessoas que você encontra três vezes no mesmo dia e a conversa continua de onde parou. A palestra dele era no mesmo horário da minha.
Eu não vi a dele. Ele não viu a minha. E as duas aconteceram.
Com o Carlyson foi a mesma conta por outro caminho. A palestra dele não bateu com a minha, bateu com o horário em que eu estava gravando o podcast. Ou seja, nem estar livre resolve: o que eu escolhi fazer com o tempo livre também custou uma palestra.
Não é defeito de organização. É o que acontece quando um evento cresce, e o mesmo crescimento que traz quatro arenas é o que traz gente suficiente para você esbarrar em alguém como o Kácio. As duas coisas vêm no mesmo pacote.
E é justamente por isso que a próxima seção existe. Ninguém consome a grade inteira. A parte do evento que está aberta para todo mundo ao mesmo tempo é a que acontece entre uma palestra e outra.
O que não estava na grade
O exemplo mais limpo foi uma conversa sobre controle de acesso para agentes de IA. Três pessoas em pé, no meio do barulho, discutindo uma coisa bem específica: quando você dá uma credencial para um agente, o que exatamente ele passa a poder fazer, e quem responde quando ele faz.
Não estava na programação, não tinha título, e tocou em um assunto tão relevante que tá no roadmap do MCP e tem uma documentação própria: Enterprise-Managed Authorization. É um assunto crucial para escalar agentes em grandes organizações.
Ela foi com o @armando barbosa Armando Barbosa, que eu já conhecia dos eventos da comunidade Python, e o Guilherme Rocha. Repare no detalhe do Armando: eu não conheci ele no RogaDX. Eu já tinha construído aquela relação em outros eventos, ao longo de anos, e o RogaDX foi só onde ela rendeu a conversa desta vez. Networking de evento não acontece no evento, acontece entre eventos. E esse networking gera mais networking no próximo evento.
Fora da foto, mas dentro da mesma categoria, ficou a conversa com o professor Francisco Vital, da Afya. Alguém que ensina programação hoje está olhando para o mesmo problema que eu, de um ângulo que eu não tenho: o que muda na formação de quem está entrando agora, se código é a parte que a IA faz melhor.
Teve também o podcast, gravado no palco da Maceió Digital com o Daniel Fireman e o Wesley Marinho.
O Wesley fez o que pouca gente faz num podcast de evento: ele preparou. As perguntas deram o trilho da conversa e deu pra compartilhar muito do que eu e o Fireman estamos passando com o uso de IA no desenvolvimento de software. A conversa foi tão boa que rendeu mais conversa longe das câmeras e fora do palco: no Happy Hour.
E teve a organização. O convite para palestrar veio do Gustavo Costa, e a equipe inteira segurou dois dias de evento em quatro arenas sem que nada desandasse.
Isso parece agradecimento protocolar e não é. Um evento que funciona é o que permite que todo o resto aconteça: se a programação atrasa, se o som falha, se ninguém sabe onde é a sala, o tempo que sobraria para conversa vira tempo de logística. A organização não aparece no que ela faz, aparece no que ela deixa você fazer.
Sorvete e café moído na hora
Duas coisas pequenas que eu não consigo tirar do relato.
A primeira foi um sorvete distribuído com a marca do evento carimbada em cima. É um detalhe e é exatamente o tipo de coisa que não acontece por acaso: alguém pensou nisso semanas antes.
A segunda foi o café. A RDV Roasters, torrefação de Maceió, moía e preparava na hora, ali. Eu sou apaixonado por café de qualidade, então declaro o viés: o evento já tinha me ganhado nesse ponto.
Esses são detalhes que marcam o evento e diferenciam da média.
Fora do palco
Se eu tivesse assistido ao RogaDX pelo YouTube, teria pego as quatro palestras e teria perdido tudo o que este post descreve. Teria perdido a conversa em pé sobre agentes. Teria perdido a descoberta, ao vivo, de que o Daniel estava medindo o que eu estava argumentando. Não teria conhecido o Kácio, e não teria nem como saber que perdi a palestra dele.
O conteúdo das palestras é a parte mais confiável de um evento. É argumento que alguém testou antes de subir no palco, com número, com caso, com o custo já pago por quem viveu aquilo. E é também a parte que você acha online: no vídeo, no slide, no relato de quem foi. O que não tem cópia é estar na mesma sala que gente que vive o mesmo problema que você, no dia em que os dois estão pensando nele.
A programação do evento é o que faz essas pessoas aparecerem no mesmo lugar, na mesma data, com o mesmo assunto na cabeça. Sem ela não existe conversa nenhuma, existe um monte de gente num galpão sem motivo comum. A palestra monta o trilho e define o assunto de interesse dos participantes do evento. O que acontece fora do palco é gente compartilhando experiência relacionada ao tema das palestras.
Eu saí do RogaDX 26 com a expectativa superada e já ansioso pelo do ano que vem.
Me conta nos comentários sobre um evento que você participou e que a conversa com as pessoas fora do palco fez a diferença.
A palestra completa, com os slides e o vídeo, está em https://to.vbmendes.dev/palestra-rogadx-26?s=nl. Se quiser conversar sobre o assunto da palestra, eu teria o maior prazer.














