Quando o caixa eletrônico chegou, ninguém tinha dúvida sobre o que ia acontecer com o caixa humano. A máquina fazia o trabalho dele, mais rápido, sem intervalo e sem folga. Era só uma questão de tempo.
Não foi o que aconteceu. E o que aconteceu de verdade é bem mais interessante do que “a previsão errou”.
Algo parecido está acontecendo com muita gente dizendo que a IA vai acabar com quem desenvolve software.
A gente já ouviu essa pelo menos quatro vezes
Antes de falar de banco, vale olhar para a nossa própria profissão, porque essa previsão já foi feita aqui e já errou várias vezes.
Linguagens de alto nível iam matar quem programava em assembly. Visual Basic ia substituir o programador profissional. Plataformas de low code iam tornar programador obsoleto. Ferramentas no code eram o fim da engenharia de software.
Repare que cada uma dessas previsões acertou um pedaço. Escrever código ficou mais abstrato a cada geração de ferramenta, e quem escrevia assembly à mão realmente virou exceção. O que elas erraram foi o principal: confundiram escrever código com desenvolver software. Continuou sendo necessário alguém que entendesse o problema, decidisse o que construir e respondesse pelo resultado.
Quatro vezes seguidas é muita sorte. Tem um mecanismo por trás.
Por que a previsão erra sempre
O mecanismo tem nome e é do século XIX. William Stanley Jevons estudava o consumo de carvão na Inglaterra e observou uma coisa que não fazia sentido nenhum: quando as máquinas a vapor ficaram mais eficientes, o país passou a consumir mais carvão, não menos.
A explicação é simples depois que alguém aponta. Carvão mais eficiente é carvão mais barato por unidade de trabalho. Barateou, então virou viável usar carvão em lugares onde não compensava antes. A demanda total subiu.
Isso ficou conhecido como paradoxo de Jevons, e ele não é sobre carvão. É sobre qualquer recurso: baratear o uso de um recurso pode aumentar a demanda por ele.
Bonito na teoria. Vamos ver com gente de verdade.
O que aconteceu com os caixas
O economista James Bessen foi atrás dos números, e eles contradizem a intuição de todo mundo.
Em 1985, os Estados Unidos tinham cerca de 60 mil caixas eletrônicos e 485 mil caixas humanos. Em 2002, eram cerca de 352 mil caixas eletrônicos. E 527 mil caixas humanos.
Os caixas eletrônicos se multiplicaram por seis, e o emprego de caixa cresceu.
O mecanismo é Jevons inteiro. O caixa eletrônico não substituiu a agência, barateou a agência: uma agência que precisava de vinte caixas passou a funcionar com treze. Agência mais barata significa que vale a pena abrir agência em lugar onde não valia antes. Os bancos abriram mais agências. Mais agências, com menos caixas cada uma, deram mais caixas no total.
Foi exatamente o contrário do que a intuição dizia, e pela razão mais banal do mundo: quando alguma coisa fica barata, você compra mais dela.
O que fica barato é experimentar
Com IA, o que está barateando não é digitar. É experimentar.
Você conhece a lista de coisas que nunca chegam a hora. Aquela documentação que ninguém escreveu. O padrão que todo mundo concorda que seria melhor e que ninguém vai aplicar em duzentos arquivos. O teste da parte chata. A refatoração que economizaria uma semana por trimestre e custa três semanas agora. O bug naquele canto do código que ninguém entende mais.
Nada disso estava parado por falta de vontade. Estava parado porque o retorno não pagava o custo. Quando o custo cai, o retorno não precisa mudar para a conta virar.
E a conta virando muda o que existe. Ideia que não valia um mês de trabalho passa a valer uma tarde. Software que não valia a pena ser escrito passa a valer. O backlog eterno deixa de ser eterno, e aparece demanda por software em lugares que nunca tiveram software.
Alguém precisa fazer esse software.
A história não termina em 2002
Só que ela não termina ali, e essa é a parte que a versão otimista dessa história costuma esconder.
O emprego de caixa de banco parou de crescer e começou a cair. O Bureau of Labor Statistics registra mais de 107 mil vagas de caixa a menos entre 2007 e 2017, e projeta uma queda de mais 13% até 2034. A explicação do próprio BLS é direta: o cliente migrou para o aplicativo, e o banco fechou agências.
Repare no que mudou entre um momento e o outro. O caixa eletrônico automatizava parte do trabalho do caixa: sacar e depositar. Para o resto, você entrava na agência. O celular automatizou o resto.
Enquanto a máquina fazia uma parte, Jevons protegeu o emprego. Quando a máquina passou a fazer quase tudo, parou de proteger.
Jevons protege o trabalho enquanto a máquina faz só uma parte dele.
Essa é a frase para levar embora, e ela vale nos dois sentidos. É por isso que a previsão do fim do caixa errou por trinta anos. E é por isso que ela acabou acertando.
A parte que está em risco
Isso desloca a pergunta. Não é se a sua profissão vai acabar, é qual parte do seu trabalho a máquina alcança primeiro.
E a resposta é a mesma nos dois casos: a parte operacional. No banco, sacar e depositar. Em software, digitar o código.
Andrew Ng tem uma frase sobre isso que ficou conhecida:
A IA não vai substituir as pessoas, mas talvez as pessoas que usam IA vão substituir as que não usam.
A ideia circulava antes dele. Karim Lakhani, de Harvard, tinha publicado uma versão mais categórica um ano antes: inteligência artificial não vai substituir humanos, mas humanos com IA vão substituir humanos sem IA. Acho que o “talvez” faz diferença aqui.
O que eu acrescento é onde mora o talvez:
E isso não se aplica só a programadores, isso se aplica a qualquer área do conhecimento. Se o seu trabalho é muito operacional, a IA muito provavelmente daqui a pouco vai fazer o seu trabalho.
Isso não é sobre programadores
Um caixa de banco não era um profissional de tecnologia, e a régua caiu sobre ele igual.
Se o seu trabalho é executar um processo que alguém já definiu, seguir um roteiro, preencher um formato, produzir a mesma peça com dados diferentes, a régua é a mesma. Não importa se você trabalha com contrato, planilha, laudo, campanha ou código.
E ninguém vai te consultar sobre isso. Você foi promovido de quem executa para quem responde pelo resultado, e essa promoção não tem como recusar.
Para quem está começando agora
Uma palavra para quem está entrando na área, porque esse texto pode ser lido do jeito errado.
Use IA. A indústria inteira usa, e recusar não é estratégia, é cavar a própria cova.
Só que existe diferença entre usar e aprender. Aceitar a resposta é fácil. Entender por que aquela é a resposta é o trabalho, e é o que vira carreira. A parte que a máquina faz por você é justamente a parte operacional, que é a parte exposta. Se você só ficar com ela, ficou com a pior metade.
A boa notícia é que a própria IA resolve isso. Não entender um trecho de código deixou de ser algo pra se envergonhar. Aqui o curioso tem vantagem. Basta perguntar: o que isso faz; por que assim e não de outro jeito; o que acontece se eu fizer diferente? É o professor mais paciente que já existiu.
Esse assunto merece um post inteiro, e vai ter. Se você quiser ler, é só ficar por aqui.
A IA não vai acabar com o desenvolvedor
O caixa eletrônico não acabou com o caixa. O aplicativo no celular acabou, trinta anos depois, quando passou a fazer o trabalho inteiro em vez de um pedaço.
Software está ficando barato, e barateamento aumenta demanda. Vai ter mais software no mundo, em lugares que não tinham, e vai ter mais trabalho para quem faz software. Vai existir mais trabalho, e menos dele vai ser operação.
Então a pergunta não é se a IA vem. Ela já veio.
E você? Qual parte do seu trabalho hoje é operação, e o que aconteceria com ela se ficasse dez vezes mais barata? Responde aqui embaixo, e salva esse post para reler quando essa parte ficar.





